No Brasil, país que lidera o ranking mundial de assassinatos de pessoas trans, escrever é um ato de resistência. Publicar é uma declaração de existência. E para as escritoras trans brasileiras, cada palavra impressa representa uma vitória contra séculos de apagamento, violência e silenciamento.
Essas mulheres não escrevem apenas para contar suas histórias — embora suas narrativas sejam urgentes e necessárias. Elas escrevem para transformar a literatura brasileira, para ocupar espaços historicamente negados, para criar memória e para garantir que as próximas gerações de pessoas trans tenham referências, espelhos e caminhos já abertos.
Conheça cinco escritoras trans brasileiras que estão redefinindo a literatura nacional com coragem, talento e uma determinação inabalável.

1. Amara Moira: A Literatura em Bajubá
Amara Moira é escritora, professora de literatura, tradutora e ativista brasileira, doutora em teoria literária pela Unicamp, sendo a primeira mulher trans a defender uma tese com nome social na referida universidade. Seu nome, inspirado na Odisseia de Homero, significa “destino amargo” — uma escolha que reflete tanto a dureza quanto a beleza poética de sua trajetória.
Seu primeiro livro, “E se eu fosse puta” (2016), é uma obra autobiográfica visceral que narra sua experiência como profissional do sexo durante sua transição de gênero. O livro desmistifica a prostituição trans, mostrando não apenas a precariedade e os perigos, mas também os momentos de afeto, comunidade e descoberta de si mesma. A literatura representou um divisor de águas em sua vida, pois foi através da transição de gênero que ela encontrou seu propósito como escritora: dar a conhecer a realidade travesti.
Em 2024, Amara lançou “Neca: Romance em bajubá”, obra revolucionária escrita inteiramente na língua secreta criada por travestis brasileiras para se protegerem das perseguições. O livro conta a história de três figuras LGBTQIA+ do Brasil Colônia: Tibira do Maranhão, Xica Manicongo e Felipa de Sousa. Mais do que um romance, “Neca” é um manifesto linguístico, uma afirmação de que a cultura travesti possui sua própria língua, sua própria literatura, seu próprio cânone.
Atualmente, Amara coordena o Museu da Diversidade Sexual em São Paulo e continua escrevendo colunas sobre futebol no portal UOL, provando que escritoras trans podem — e devem — ocupar todos os espaços da cultura brasileira.
Por que ela importa: Amara não apenas escreve sobre experiências trans; ela revoluciona a própria linguagem literária, usando o bajubá como instrumento de descolonização cultural e resistência.
2. Laerte Coutinho: Quadrinhos que Transformam
Laerte Coutinho é uma cartunista e chargista brasileira nascida em 1951, considerada uma das artistas mais importantes da área no país. Durante décadas, ela criou personagens icônicos como os Piratas do Tietê, Overman e participou da lendária série Los Três Amigos, ao lado de Angeli e Glauco.
Em 2010, Laerte revelou publicamente que praticava crossdressing e, posteriormente, se identificou como pessoa transgênero. Essa transição não foi apenas pessoal — ela reverberou em sua obra. O personagem Hugo Baracchini se transformou em Muriel, e as tiras de Laerte ganharam uma camada existencialista e ativista profunda. Seus quadrinhos passaram a abordar questões de identidade de gênero, transfobia, e as contradições da sociedade brasileira com o humor afiado que sempre a caracterizou.
Em 2012, Laerte cofundou a ABRAT (Associação Brasileira de Transgêneros), organização voltada a defender a livre expressão da identidade transgênera e os direitos civis das pessoas trans. Ela também foi protagonista do documentário “Laerte-se” (2017), dirigido por Eliane Brum e Lygia Barbosa, que explora sua transformação artística e pessoal.
Recentemente, publicou “Storynhas” pela Companhia das Letras, no qual ilustra histórias da roqueira Rita Lee, consolidando-se como uma das maiores cartunistas brasileiras de todos os tempos — trans, corajosa e incansável.
Por que ela importa: Laerte provou que é possível reinventar-se aos 60 anos e que a arte pode ser uma ferramenta poderosa de transformação social. Sua transição pública ajudou milhares de pessoas a compreenderem a transgeneridade.
3. Jaqueline Gomes de Jesus: Intelectual Transfeminista
Jaqueline Gomes de Jesus é psicóloga, professora universitária e ativista brasileira, doutora em Psicologia pela UnB, e foi a primeira gestora do sistema de cotas para negros da Universidade de Brasília. Mulher trans, negra e periférica — nascida em Brasília e criada em Ceilândia —, Jaqueline é uma das maiores referências do transfeminismo no Brasil.
Ela é organizadora e autora do livro “Transfeminismo: Teorias & Práticas” (2014), obra fundamental que reúne textos de diversas autoras trans brasileiras e estabelece as bases teóricas do movimento transfeminista no país. O livro aborda identidade de gênero, trabalho sexual, racismo, violência e políticas públicas sob uma perspectiva interseccional.
Em 2017, recebeu a Medalha Chiquinha Gonzaga da Câmara Municipal do Rio de Janeiro por sua contribuição ao debate sobre relações raciais, gênero, identidade de gênero, sexualidades e direitos humanos, por indicação da vereadora Marielle Franco. Em 2025, tornou-se a primeira mulher trans a receber o Diploma Bertha Lutz do Senado Federal.
Professora do Instituto Federal do Rio de Janeiro, Jaqueline também contribuiu para obras coletivas como “Explosão Feminista”, organizado por Heloísa Buarque de Hollanda, e “Vidas Trans: A Coragem de Existir”. Sua produção acadêmica e literária é vasta, abordando saúde mental de minorias sexuais e de gênero, movimentos sociais e políticas públicas.
Por que ela importa: Jaqueline é a voz intelectual do transfeminismo brasileiro. Ela une rigor acadêmico, militância política e escrita acessível para transformar mentalidades e políticas públicas.
4. Helena Vieira: A Nova Geração Transfeminista
Helena Vieira é escritora, ativista transfeminista e uma das vozes mais promissoras da nova geração de autoras trans brasileiras. Jovem e articulada, ela desponta especialmente na não-ficção, trazendo reflexões contemporâneas sobre identidade de gênero, direitos humanos e política.
Em 2018, Helena colaborou com três importantes livros: “Explosão Feminista”, organizado por Heloísa Buarque de Hollanda; “Tem Saída? Ensaios Críticas Sobre o Brasil”, da editora Zouk; e “História do Movimento LGBT no Brasil”, da editora Alameda. Sua produção se caracteriza por textos ensaísticos que analisam a realidade brasileira sob a ótica transfeminista.
Além de escritora, Helena também atuou como consultora para a novela da Rede Globo em 2017, ajudando a levar a temática de identidade de gênero para milhões de lares brasileiros através da televisão. Seu trabalho demonstra que escritoras trans podem e devem ocupar também os espaços da cultura de massa, influenciando narrativas que alcançam públicos diversos.
Por que ela importa: Helena representa a nova geração de escritoras trans que não esperam permissão para ocupar espaços. Ela escreve, publica, colabora e transforma a cultura brasileira em múltiplas frentes.
5. Ruddy Pinho: Entre Cabelos e Letras
Ruddy Pinho é escritora, cabeleireira e uma das pioneiras da literatura trans brasileira. Embora seja frequentemente reconhecida por sua profissão como cabeleireira, Ruddy é também uma escritora premiada cujo trabalho merece visibilidade.
Seu livro “Nem tão bela, nem tão louca” foi publicado pela Nova Razão Cultural e traz suas memórias e reflexões sobre a vida como travesti no Brasil. A obra combina relatos pessoais com análises sobre a sociedade brasileira, o preconceito e a sobrevivência trans.
Ruddy representa as muitas escritoras trans brasileiras que produzem literatura de qualidade mas que ainda lutam por reconhecimento pleno. Sua trajetória demonstra que talento literário não se restringe a espaços acadêmicos ou intelectuais — ele pode florescer em qualquer lugar, inclusive em um salão de beleza.
Por que ela importa: Ruddy nos lembra que há centenas de escritoras trans cujas vozes ainda precisam ser amplificadas. Ela representa a diversidade de trajetórias dentro da própria comunidade trans.
A Literatura Trans é Literatura Brasileira
O que essas cinco escritoras têm em comum? Todas enfrentam uma realidade brutal: o Brasil é o país que mais mata pessoas trans no mundo. De acordo com dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), mais de 90% das travestis e mulheres trans brasileiras só encontram trabalho no mercado informal, especialmente na prostituição.
Nesse contexto, escrever não é apenas um ato criativo — é um ato político de sobrevivência. É dizer: “Eu existo, eu penso, eu crio, eu importo”. É ocupar espaços que historicamente foram negados. É criar arquivos de memória para que as próximas gerações não precisem começar do zero.
A literatura trans brasileira aborda temas diversos: identidade de gênero, trabalho sexual, racismo, violência, amor, família, sexualidade, política, história. Ela não se limita à dor — embora a dor seja uma realidade inescapável. Ela também celebra alegrias, conquistas, amizades, prazeres, sonhos.
Como bem observa Jaqueline Gomes de Jesus, o desafio atual é abordar essas questões ficcionalmente, indo além dos estereótipos. As escritoras trans brasileiras estão fazendo exatamente isso: criando personagens complexas, explorando gêneros literários diversos, experimentando com a linguagem.
O Futuro da Literatura é Trans
A presença de escritoras trans na literatura brasileira é relativamente recente, mas já transformou o panorama cultural do país. Editoras passaram a publicar obras trans. Prêmios literários começaram a reconhecer essas autoras. Universidades incluem suas obras em currículos.
Mas ainda há muito a fazer. A maioria das escritoras trans ainda enfrenta dificuldades para publicar, circular e viver de sua escrita. O mercado editorial precisa abrir mais portas. As instituições culturais precisam criar mais oportunidades. E a sociedade brasileira precisa ler, valorizar e defender essas vozes.
Porque quando uma escritora trans publica um livro, ela não está apenas contando uma história. Ela está desafiando estruturas de poder. Ela está criando possibilidades de existência. Ela está salvando vidas — incluindo, muitas vezes, a própria.
As escritoras trans brasileiras não pedem licença para existir. Elas simplesmente escrevem. E ao escreverem, transformam a literatura, a cultura e o próprio Brasil.
Ler essas autoras é mais do que um ato de apoio — é uma oportunidade de expandir horizontes, questionar certezas e compreender que a literatura brasileira só será verdadeiramente completa quando todas as vozes puderem ser ouvidas.
A literatura trans brasileira existe. É potente. É necessária. E está apenas começando.