Como uma escritora perdida, sem saber para quem mandar seu livro para diagramar, construiu o maior movimento de autoras independentes do Brasil?
Lella Malta hackeou o sistema. Sozinha, autopublicada e invisível para as editoras tradicionais, ela criou o caminho que ninguém tinha desenhado. Hoje, leva 100 mulheres para a FLIP, enquanto grandes editoras reservam espaços apenas para seus autores consagrados.
No episódio de estreia do Escreva, Garota! Talks, César Lima desvenda o código dessa revolução. Lella revela como transformou solidão em ecossistema, gavetas trancadas em bestsellers da Amazon, e por que recusou dinheiro de um homem que queria palestrar no Elas Publicam.
A fórmula secreta? Coragem, ancestralidade feminina e a convicção de que literatura de entretenimento não precisa pedir desculpas para existir. Romances fofos vendem milhões. Mulheres escrevem profundamente. E o mercado editorial tradicional está tremendo.
Lella abre o coração no episódio de estreia do Escreva, Garota! Talks
“Dizem que escrever é um ato solitário. Uma pessoa, uma mesa, um café frio e o silêncio. Mas por aqui a gente discorda um pouco disso.” É com essa provocação que César Lima abre o primeiro episódio do Escreva, Garota! Talks, o novo podcast que promete transformar páginas em branco em pontes entre escritoras de todo o Brasil.
E quem melhor para inaugurar esse espaço do que a própria criadora do movimento? Lella Malta, a escritora bestseller brasiliense que transformou sua inquietude em um ecossistema que hoje abriga e impulsiona centenas de autoras pelo mundo, senta na cadeira de convidada do seu próprio podcast para uma conversa honesta, inspiradora e profundamente necessária sobre o mercado editorial brasileiro.

Brasília: berço de uma revolução literária
Cria do cerrado, Lella Malta carrega Brasília nas entrelinhas de tudo que escreve. “Brasília convida a gente a criar”, ela conta com o carinho de quem nunca pensou em morar em outro lugar. “O céu, os traços de Niemeyer, o pôr do sol, as árvores tortas, os ipês floridos. Tudo é um convite para a criação.”
Filha de músico, criada em meio ao rock brasiliense, Lella cresceu respirando cultura. Essa mistura de povos que chegam e passam pela capital federal, somada à efervescência cultural da cidade, moldou a escritora que hoje se recusa a seguir apenas um caminho.
A Mirela e a Lella: quando a academia encontra o romance
Cientista social pela UnB, especialista em políticas públicas e estudante de comunicação, Lella Malta vive uma dupla identidade literária. De um lado, a Mirela acadêmica, que segue as regras e mergulha nas ciências sociais. Do outro, a Lella que escreve romances de entretenimento, apaixonada por cultura pop e filmes de Natal.
“A Lela é muito mais divertida, é muito mais legal”, ela confessa com um sorriso na voz. Mas as duas conversam, se mesclam. Quando escreve ficção, Lella reconstrói realidades e insere questões fundamentais que estudou na academia. Maternidade compulsória em “Quanto Mais Falta”, luto em “Qual é o Nome da Vez?” — suas protagonistas são sempre mulheres fortes e corajosas, reflexos de sua própria jornada.
E aqui está uma das defesas mais contundentes de Lella: o livro não precisa ser útil. “Eu não acredito que o livro precise necessariamente ensinar algo. A literatura pode só entreter, pode desconectar a gente dessa realidade que é tão difícil, que às vezes é tão dolorosa.”
Para Lella, a literatura de entretenimento é seu espaço de descanso. É o que ela consome antes de dormir. E é exatamente isso que ela quer oferecer para seu público-alvo: mulheres que precisam pousar e descansar.
A escrita como atitude de guerrilha
“A escrita é uma atitude de guerrilha para mulheres.” Esta frase de Lella resume perfeitamente a razão de existir do Escreva, Garota! O projeto nasceu da solidão que ela sentiu ao lançar seu primeiro livro.
Depois de estourar no Wattpad e na Amazon, Lella se viu completamente perdida. Para quem mandar o livro para ser diagramado? Como funciona a autopublicação? Ninguém falava sobre isso. O mercado tradicional sempre teve muito peso, mas o caminho das autoras independentes era nebuloso, solitário.
“Eu criei aquilo que eu queria que alguém tivesse criado para me ajudar”, ela explica. E assim nasceu o Escreva, Garota! — um produto que até hoje não tem similar no mercado editorial brasileiro. Um espaço dedicado a formar e capacitar mulheres para entrarem no mercado editorial de forma profissional.
Mas o projeto vai além da técnica. Ele existe para combater o apagamento da escrita de mulheres, fenômeno que ainda resiste no Brasil. “Durante muito tempo as mulheres não podiam assinar seus escritos. Quantas mulheres na literatura brasileira tiveram seus livros assinados pelo nome do marido, do irmão?”
E o preconceito continua. A literatura feita por mulheres ainda é vista por muitos como “literatura de mulherzinha”, superficial, que fala de “coisas bobas”. O Escreva, Garota! existe para desmontar esse raciocínio violento.
100 mulheres na FLIP: celebração e resistência
Um dos momentos de maior orgulho para Lella é levar dezenas de autoras para grandes eventos literários como a FLIP, criando a Casa Escreva, Garota!. “É um momento de festa, de celebração. As pessoas estão lançando, assinando seus livros, compartilhando seus escritos.”
São mulheres que, de outra forma, não teriam acesso a esses espaços. As casas da FLIP geralmente pertencem às editoras tradicionais. Para uma autora autopublicada, é quase impossível chegar lá. O Escreva, Garota! garante essa visibilidade essencial.
“A literatura tem essa capacidade de estender nossa existência. O que é mais fantástico do que isso?”
Microfone sempre na mão de uma mulher
Em determinado momento da conversa, César pergunta sobre um episódio curioso: Lella negou que um homem “patrocinasse” o evento Elas Publicam. A história é reveladora.
“Na verdade, ele não tinha nenhuma grana. Ele só queria palestrar no evento”, Lella conta, rindo. “Qual é a chance de aceitar uma coisa dessa?”
Os homens são bem-vindos nos espaços do Escreva, Garota! e do Elas Publicam — como ouvintes. “O microfone sempre vai estar na mão de uma mulher.” É assim que se cria espaço de voz e vez para quem historicamente foi silenciada.

Entre panelas e páginas: a ancestralidade feminina
Quando não está escrevendo, Lella está cozinhando. Ela prepara verdadeiros banquetes para amigas e amigos, sempre acompanhados de um bom vinho tinto. E vê conexão profunda entre cozinhar e escrever.
“Quando a gente escreve ou cozinha, principalmente uma mulher, a gente está acessando uma ancestralidade. Quando eu cozinho, eu lembro da minha avó. Quando eu escrevo, estou tentando resgatar essa voz de mulheres que vieram antes de mim.”
É tudo uma reescrita do afeto. Uma forma de conectar passado, presente e futuro através das mãos femininas que criam.
“Publique. Essa é a minha dica.”
Para as mulheres que têm romances escondidos na gaveta, paralisadas pelo medo ou pela vergonha, Lella é direta: “Publique, César. Essa é a minha dica.”
Ela faz um apelo para que as mulheres parem de viver a autossabotagem de achar que tudo que escrevem é ruim. “Não caia nessa ideia de que o que você está escrevendo não é algo profundo, é algo muito raso. Muito pelo contrário, quando a gente olha para a lista dos mais vendidos, a literatura comercial está sempre muito presente.”
Não tenha vergonha de se expor. Solte sua voz. Encontre seu caminho dentro do mercado. “A gente precisa ler o que você está escrevendo aí, o que está dentro da sua gaveta.”
O futuro é otimista e corajoso
Olhando para os próximos cinco anos, Lella enxerga crescimento e novos projetos. Um deles já está em prática: visitas às livrarias de rua pelo Brasil, valorizando esses espaços de resistência em um mercado dominado por grandes empresas.
“Eu sou otimista e corajosa. Sempre olho pro futuro com otimismo e com coragem.”
E quando César pede uma palavra para definir o futuro das mulheres na literatura brasileira, Lella não hesita: coragem.
“As mulheres que estão fazendo literatura hoje são corajosas. Então, coragem.”
Um podcast que é festa, terapia e guerrilha
O Escreva, Garota! Talks chega para mostrar que escrever não precisa ser um ato solitário. Pode ser coletivo, pode ser festa, pode ser terapia. E, acima de tudo, pode ser uma atitude de guerrilha.
César Lima conduziu essa conversa inaugural com sensibilidade e profundidade, criando um espaço onde técnica literária se mistura com boletos, bloqueios criativos com taças de vinho, ancestralidade com cultura pop.
E Lella Malta, a anfitriã que virou convidada, entregou exatamente o que o mercado editorial brasileiro precisa ouvir: mulheres não precisam de permissão para escrever. Elas precisam de espaço, de apoio, de comunidade — e de coragem para publicar o que está na gaveta.
Como César encerrou o episódio: “O lugar de mulher é onde ela quiser, inclusive nos bestsellers mais escritos da literatura brasileira e mundial.”
Ouça o Escreva, Garota! Talks e acompanhe o movimento:
- Instagram: @escrevagarota
- Instagram: @lelamalta
- Instagram: @elaspublicam
- TikTok: @escrevagarota
Porque a literatura brasileira só será completa quando todas as vozes puderem ser ouvidas. E essa revolução já começou.