O mercado editorial brasileiro, por décadas, foi um território hostil para as mulheres. Dominado por homens, pautado por convenções rígidas e repleto de preconceitos, ele representava uma muralha quase intransponível para as vozes femininas. Mas algumas escritoras não aceitaram o papel de coadjuvantes que lhes foi designado. Elas escreveram, publicaram, provocaram e transformaram a literatura brasileira, mesmo quando chamadas de afrontosas, imorais ou inadequadas. Eram, na verdade, revolucionárias.

O mercado editorial que dizia “não”
Durante grande parte do século XX, as editoras brasileiras operavam com uma lógica cruel: literatura escrita por mulheres era considerada menor, menos comercial, menos importante. Temas considerados “femininos” eram relegados a seções específicas, como se romance psicológico, crônica doméstica ou poesia intimista fossem gêneros inferiores. Mulheres que ousavam escrever sobre sexualidade, política ou filosofia eram vistas com desconfiança.
As poucas que conseguiam publicar enfrentavam críticas condescendentes, avaliações baseadas em sua aparência física e não em seu talento, e a constante pergunta: “Mas quem realmente escreveu isso para você?” O mercado não acreditava que mulheres pudessem ser intelectualmente profundas, comercialmente viáveis ou literariamente relevantes.
As que escreveram mesmo assim
Júlia Lopes de Almeida (1862-1934) foi uma das primeiras a romper barreiras. Prolífica e bem-sucedida, ela publicou romances, crônicas e peças teatrais que eram amplamente lidos. Chegou a ser considerada para a Academia Brasileira de Letras em sua fundação, mas foi preterida por ser mulher — seu marido ocupou a cadeira no lugar dela. Júlia não se calou. Continuou escrevendo, vendendo e conquistando leitores, provando que havia mercado para literatura feminina de qualidade.
Pagu (Patrícia Galvão, 1910-1962) foi ainda mais radical. Escritora, poeta, jornalista e militante política, ela publicou “Parque Industrial” em 1933, um romance proletário que escandalizou a sociedade paulistana. Escrito sob pseudônimo masculino (Mara Lobo) para ser levado a sério, o livro denunciava as condições de trabalho nas fábricas e a exploração de mulheres operárias. Pagu foi presa, perseguida e marginalizada pelo establishment literário. Sua obra só foi devidamente reconhecida décadas depois de sua morte.
Hilda Hilst (1930-2004) enfrentou um mercado que não sabia o que fazer com ela. Seus textos eram complexos, eróticos, filosóficos e experimentais demais para os padrões comerciais. Frustrada com a falta de leitores e reconhecimento, chegou a publicar literatura erótica explícita como forma de protesto, tentando chamar atenção para sua obra “séria”. O mercado a ignorou mesmo assim. Hoje, ela é considerada uma das maiores escritoras brasileiras, mas durante sua vida foi tratada como excessiva, difícil, “não-comercial”.
O conteúdo que incomodava
O que tornava essas escritoras tão “problemáticas” para o mercado?
Carolina Maria de Jesus escreveu sobre fome, miséria e racismo com uma crueza que constrangia a elite literária. “Quarto de Despejo” foi um fenômeno editorial em 1960, mas Carolina foi tratada como curiosidade antropológica, não como escritora legítima. Queriam sua história de sofrimento, não sua voz autoral. Quando ela tentou publicar romances e poesia, o mercado perdeu o interesse. Seu talento literário era negado porque sua existência incomodava.
Lygia Fagundes Telles precisou provar repetidamente que não era apenas “uma mulher que escreve bem”, mas uma das melhores contistas brasileiras, ponto final. Suas narrativas sobre sexualidade feminina, relações de poder e psicologia das classes médias urbanas eram consideradas perturbadoras. O mercado queria domesticá-la, transformá-la em escritora palatável. Ela resistiu, mantendo a complexidade e a profundidade de sua obra.
Clarice Lispector foi chamada de hermética, difícil, “não-comercial”. Editores não sabiam como vender seus romances experimentais. Críticos homens frequentemente a infantilizavam ou sexualizavam em suas resenhas, falando de sua beleza antes de seu talento. Clarice seguiu escrevendo de forma radical, recusando-se a simplificar sua prosa para agradar o mercado. Tornou-se um dos maiores nomes da literatura brasileira mundial.
As estratégias de sobrevivência
Diante da hostilidade, essas escritoras desenvolveram estratégias:
Algumas usaram pseudônimos masculinos para serem publicadas. Outras aceitaram trabalhos em jornais e revistas, onde tinham mais liberdade criativa que nas editoras. Muitas se tornaram professoras para ter independência financeira, escrevendo à noite e nos finais de semana. Algumas criaram redes de apoio entre si, promovendo e defendendo o trabalho umas das outras.
Rachel de Queiroz usou sua posição no jornalismo para abrir portas. Cecília Meireles construiu uma carreira como educadora que sustentou sua poesia. Cora Coralina simplesmente ignorou o mercado editorial tradicional por décadas, publicando por conta própria até ser “descoberta” aos 75 anos.
O legado: um mercado transformado?
Hoje, o mercado editorial brasileiro mudou significativamente. Escritoras contemporâneas como Conceição Evaristo, Eliana Alves Cruz, Jarid Arraes, Cristiane Sobral e tantas outras publicam regularmente, vendem bem e recebem prêmios importantes. Editoras buscam ativamente vozes femininas, especialmente de mulheres negras, indígenas e periféricas que historicamente foram excluídas.
Mas seria ingênuo pensar que a batalha foi completamente vencida. Mulheres escritoras ainda enfrentam questionamentos sobre sua autoridade intelectual, ainda precisam lidar com capas que as sexualizam, ainda veem seus livros classificados como “literatura feminina” enquanto livros de homens são apenas “literatura”.
Afrontosas E revolucionárias
A resposta à pergunta do título não é “ou”, é “e”. Essas escritoras foram afrontosas aos olhos de um mercado conservador e misógino porque eram revolucionárias. Elas recusaram os papéis limitados que lhes foram oferecidos. Escreveram sobre temas proibidos. Experimentaram com a linguagem. Falaram verdades incômodas. E, acima de tudo, persistiram.
Cada livro publicado por uma mulher brasileira no século XX foi um ato de rebeldia. Cada página escrita era uma declaração de existência. Cada palavra impressa era uma recusa em ser silenciada.
O mercado editorial tentou domá-las, diminuí-las, ignorá-las. Elas responderam com obras-primas. E venceram.
Hoje, quando uma jovem escritora brasileira publica seu primeiro livro, ela caminha por um caminho que foi aberto por essas mulheres afrontosas, brilhantes e absolutamente revolucionárias. Elas desafiaram o mercado. E o transformaram para sempre.